
Ontem sonhou com tambores. E enquanto lá esteve, lançou-se dentro dos bumbos e berimbaus daquele povo. Por isso cantou-se mais forte. Cantou-se mais sólida.
Dançava. Deixava que a música guiasse o corpo incansável. Deixava que a batida entoasse o ritmo e a vibração da própria alma. Pisava macio e respirava bem forte enquanto ruía no peito a linguagem dos tambores e vozes combinadas. Enchia-se de sons, de notas, de emoção. E não só ouvia, como também os sentia pulsando nas veias. Firmes, sonoros, harmônicos. Sugerindo a personificação da força
Encantada, como uma flauta mágica, mexia-se toda enquanto fantasiava-se para o seu ritual. Cobriu a pele de um tom bem escuro e por cima aplicou as cores vibrantes daquela cerimônia. Trançou os cabelos, vestiu trapos sujos, muito satisfeita, e pingou a tinta nos lábios para não deixar vestígios.
Pobre menina. Cantava-se tão preta e tão vigorosa! Cheia de vida como nunca ousara enquanto pálida e bem vestida! Na verdade, sempre soube que a alma era negra como a de seus ancestrais. Os olhos nunca negaram. E ela pedia sempre que um dia, assim, pudesse estar.
Dançava. Deixava que a música guiasse o corpo incansável. Molhava as roupas de suor. Deixava a tinta escorrer no rosto e sentia nos dedos o calor da terra. Girava. Flutuava. Pairava no ar... No sonho... Sonho em que se doava ao máximo para cobrir-se inteira de África. Conjurava-se, assim, Mãe África.


