7 de agosto de 2008

Tambores


Ontem sonhou com tambores. E enquanto lá esteve, lançou-se dentro dos bumbos e berimbaus daquele povo. Por isso cantou-se mais forte. Cantou-se mais sólida.

Dançava. Deixava que a música guiasse o corpo incansável. Deixava que a batida entoasse o ritmo e a vibração da própria alma. Pisava macio e respirava bem forte enquanto ruía no peito a linguagem dos tambores e vozes combinadas. Enchia-se de sons, de notas, de emoção. E não só ouvia, como também os sentia pulsando nas veias. Firmes, sonoros, harmônicos. Sugerindo a personificação da força em canção. E transformando qualquer canto em grande ciranda: Cheia de pano, de cheiro e de cores.

Encantada, como uma flauta mágica, mexia-se toda enquanto fantasiava-se para o seu ritual. Cobriu a pele de um tom bem escuro e por cima aplicou as cores vibrantes daquela cerimônia. Trançou os cabelos, vestiu trapos sujos, muito satisfeita, e pingou a tinta nos lábios para não deixar vestígios.

Pobre menina. Cantava-se tão preta e tão vigorosa! Cheia de vida como nunca ousara enquanto pálida e bem vestida! Na verdade, sempre soube que a alma era negra como a de seus ancestrais. Os olhos nunca negaram. E ela pedia sempre que um dia, assim, pudesse estar.

Dançava. Deixava que a música guiasse o corpo incansável. Molhava as roupas de suor. Deixava a tinta escorrer no rosto e sentia nos dedos o calor da terra. Girava. Flutuava. Pairava no ar... No sonho... Sonho em que se doava ao máximo para cobrir-se inteira de África. Conjurava-se, assim, Mãe África.

26 de fevereiro de 2008

Recipiente



Engraçado mesmo foi ter me vestido daquele mergulho.
Porque, a princípio, eu me debruçava sob aquelas águas sem saber sequer quais eram meus sonhos. Seguia serena, deslumbrando aquela superfície e almejando um dia transcorrer-me por seu fluido. Leve e dissoluta, depositando minh’alma dentro daquela vastidão de fluxos.

Foi quando nessas circunstâncias, absorta com tantas águas, que com muito carinho agarrei-me às tuas mãos e te arrastei para dentro daquela tela que o meu coração pincelava. Mergulhei ali não para roubar-te! Do contrário, para te mostrar como a minha janela poderia levar-nos aonde nossa imaginação nos permitisse.

Como uma quimera... Te levaria para pisar no meu céu de crustáceos, te apresentaria a cada peixinho, provaríamos as alga, contaríamos todos os grãos, cantaríamos com as sereias e brincaríamos com meus cavalos marinhos... Livres de todas as tormentas.

Eu me embebedaria somente em admirar como aquela imensidão de mundos te fariam feliz.

E ainda arrisco que, dos goles mais tentadores que já bebi, embora efêmeros, esses foram os mais fantásticos.



24 de janeiro de 2008

Nostalgia



Meninos; Zé Geraldo.

Vou pro campo
No campo tem flores
As flores têm mel
E mais de noitinha
estrelas no céu
O céu da boca da onça é escuro
Não cometa, não cometa, não cometa furo
Pimenta malagueta não é pimentão

Vou pro campo
acampar no mato
No mato tem pato, gato e carrapato
Canto de cachoeira
Dentro d'água pedrinhas redondas
Quem não sabe nadar
não caia nessa onda
A cachoeira é funda e afunda

Não sou tanajura mas eu crio asas
e com os vagalumes eu quero voar
O céu estrelado hoje é minha casa
e fica mais bonita quando tem luar
Quero acordar com os passarinhos
Cantar uma canção com o sabiá

Dizem que verrugas são estrelas
que a gente aponta
Que a gente conta antes de dormir
Eu tenho contado
mas não tem nascido
Isto é história de nariz comprido
Deixe de mentir

Os sete anões pequeninos
Sete corações de meninos
A alma leve
São folhas e flores ao vento
O sorriso e o sentimento
Da Branca de Neve


Composição: Juraildes da Cruz.
Foto: Minha (Odilo, meu pai, e a pequena Vitória, minha réplica).

Motim

Eu vagava sem rumo pelas estrelas quando atinei para o sorriso trôpego daquele rapaz. Censurei tal quadro porque cavalguei ali, por toda parte, porém nunca encontrei nada parecido. Algo assim... Peculiar.
Dispersei-me com a mágica daquele sonho e toquei com a dança insondável, permitindo-me enfeitiçar pelos laços que se desenhavam no ar.

Apenas senti quando o bendito e cujo ensaiou abordar-me. Felinamente.
Pareceu-me, por um breve instante, que as cores se misturavam a melodia branda e levemente húmida que escorregava-lhe por entre os dentes. Meus sentidos hesitaram por todas as vezes que ousei perpetuar seu hálito.. Tão quente que me revolvia as entranhas!
Deixei-me, então, seduzir pelo perfume que exalava sua pele, como um feitiço, fascinando e lhe diferindo das demais. Que ingenuidade a minha...
Não tardou muito para que a música silenciasse, para que o peito arfasse, para que os braços firmassem ou que o olhar invadisse.
Compassadamente, desatinando suave, sentenciei-me ao calor mais derradeiro e espaçado a findar-se.
Me foi duro não resistir aos teu encantos, meu bem.
Mas asseguro impetuosa: Uma só gota me bastou.

5 de janeiro de 2008

Filosofia


O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome.
Deixando de saber
Se vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim.
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim.
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é a minha inimiga.
Pois cantando nesse mundo
Vivo escravo do meu samba,
Muito embora vagabundo.
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia.



Composição: Noel Rosa.
Arte: Serigrafia, Roda de Samba.

2 de janeiro de 2008

Perdoa a intolerância, meu bem.
Perdoa a incompreensão deste coração tão leigo.
Perdoa, pois são meus instintos que me submetem a esta vida arisca.
E não justificam a minha omissão, nem minha insensatez.

Mas meu bem,
transita em mim uma nuvem libertina,
pairando sobre nossos calos, nossos vícios, nossos erros.
E arrastando-a porta a fora
Sigo fadada às verdades tanto humanas quanto falhas,
Escorregadia pelos sabores mais ímpares
E sedenta pela dose mas íntima.

Perdoa, bem
Mas é verdade que ainda creio no amor.
E alimentarei o encanto que talvez clareie minha cegueira.
Vem. Balança-me em teus braços e me cuida.
Serei dedicada, sem desatinar.

Então não me custas, benzinho
Pois já não quero ser predadora do meu próprio peito.
Aceita-me sem nos dissimular.
Perdoa-me e vem.